Vamos dar um P.L.U.R!

Texto por Rodrigo Niemeyer Reinelt com colaboração de Rodrigo Robazzi 

A origem do termo P.L.U.R é controversa, mas acredita-se que tenha sido criado pelo DJ americano Frank Bones. Renomado Dj e considerado por muitos como o “o pai das Raves nos EUA”. Ele levou no ano de 1993 esse conceito à costa Leste americana, mais precisamente para Nova York, através de diversas grandes festas undergrounds que vieram a ser conhecidas como “Storm Raves”. Ao término de uma de suas apresentações, Bones explicou ao público do que se tratava a festa e em 4 palavras disse porque ele havia trazido a cena para Nova York: Peace, Love, Union and Respect. Quando ele terminou, toda a platéia chacoalhou as mãos no ar em completa união e a partir daí a sigla P.L.U.R estava criada.

O P.L.U.R é uma sigla para uma espécie de filosofia de vida, que as pessoas tem a opção de seguir. Nessa filosofia de vida, seria preciso saber cultivar a paz individual e coletiva, cultivar sentimentos de carinho e amor para com o próximo, incitar a união entre todos e respeitar coisas, meio ambiente e outras pessoas, independente de credo, raça, religião, gostos e opiniões, etc. Tudo muito bonito, mas não resta apenas saber o significado da sigla, e sim é preciso saber, entender e tentar colocar esta filosofia em prática.

P(eace) 
Paz. A tranquilidade interior que está dentro de cada um de nós, apesar de nem sempre sermos capazes de encontrá-la. Quando a possuímos, passamos calma e serenidade a tudo e todos que estão à nossa volta.

L(ove) 
Amor. O sentimento incondicional de afeto que sentimos por algo ou alguém. Pela lei universal da ação-reação todo amor que você der a alguém será devolvido a você de alguma forma. Lembro que as duas primeiras letras do PLUR representam nada mais nada menos do que a base do ideal hippie de vida ( Paz e Amor).

U(nion) 
União. Apesar de todas as nossas diferenças, todos compartilhamos um conjunto comum de características: somos todos humanos, imperfeitos e dependemos uns dos outros para nossa sobrevivência. Com paz e amor, a união permite a você se relacionar com outras pessoas APESAR de suas diferenças, e até mesmo se enriquecer com esta troca de experiências.

R(espect)
Respeito. Aqui temos que saber reconhecer e aceitar que somos diferentes, APESAR de nosso conjunto comum de características. Precisamos respeitar uns aos outros, a nós mesmos ( cuidando adequadamente de nosso corpo e mente) e até mesmo ao ambiente à nossa volta. Quem respeita não pixa, não agride, ajuda quando alguém precisa, não joga lixo no chão e zela pelo espaço a sua volta

Muitas pessoas acham que o P.L.U.R é uma filosofia derivada da época do WoodStock e em parte é verdade, por que os hippies foram os criadores e propagadores do “Peace & Love”. Mas não só dos hippies que se originou esse termo, cujo conceito é mais antigo do que o termo que o cunha, e saber sobre ele é uma importante forma de conhecer um pouco a respeito da cultura rave.

Grande parte dos conceitos dessa cultura foram absorvidos do mundo oriental, mais precisamente a Índia, país em que fica Goa, local onde se originaram as raves. A cultura e a mistura de religiões, como o Hinduismo, Budismo e Bramanismo, tornou os hábitos do oriental muito mais designado ao seu ser, como se fosse dono de si e senhor de suas escolhas e sendo assim atribui-se mais ao individuo e não a Deus fazer o mundo melhor. A partir desse preceito a cultura rave se formou em torno do conceito doP.L.U.R, e deveria ser implícito que as pessoas que participam dessas festas deveriam praticá-lo.

Na atual cena brasileira, o termo P.L.U.R parece ter tido seu conceito esquecido, assim como sua prática, e por isso cada vez mais perde sentindo e se enfraquece para muitos que freqüentam as raves. Isso aconteceu subconscientemente e gradualmente e, vem de fatores que estão fora das raves, principalmente dois: econômico e cultural. No contexto econômico sofremos com o modelo capitalista em que nossas vidas estão inseridas, que nos obriga a sermos principalmente competitivos. Transpondo para o contexto das raves, muitas pessoas não se olham mais como possíveis amigos, mas sim como possíveis competidores, o que bate de frente com o conceitoP.L.U.R. No contexto cultural, simplesmente há falta de informação (há casos em que a informação existe, mas pelo simples fato de vivermos em constante bombardeamento de informação, tendemos a simplesmente rejeitar e ignorar muita, e nesse processo dispensamos lixo, assim como coisas importantes e boas), que é necessária para alimentar a cultura. Muitas pessoas nunca ouviram falar do conceito P.L.U.R, e a maioria que já ouviu, simplesmente limita-se a saber quais palavras formam sua sigla.

Com a maioria das pessoas não conhecendo o conceito ou mesmo não entendendo realmente seu o significado (e por isso não sabendo o porque seria importante praticá-lo), o conceito P.L.U.Rse torna uma palavra vazia de sentido, sendo alvo fácil de deformações e deturpações, como é o que está acontecendo hoje nas festas. A palavraP.L.U.R vem erroneamente sendo associada apenas às “boas vibrações” e modismos que as festas possuem como pessoas que não se conhecem se abraçando, pessoas com roupas coloridas, bichinhos de pelúcia aos montes ou simplesmente faixas com palavras bonitas.

O P.L.U.R não é apenas isso, e é exatamente por causa desse uso distorcido do sentido que pessoas que não concordam passam a atacar com movimentos anti-PLUR, qualquer um que seja a favor do movimento, sejam eles os que usam corretamente ou erroneamente o sentido (exs: vide movimentos “PLUR my ass” e a discriminação do pessoal “harebo” ou mesmo“FREAK”, como é rotulado o pessoal que leva o P.L.U.R mais a sério). P.L.U.Rdiz respeito ao espírito (no intrínseco sentido de suas palavras) que supostamente deveria reinar dentro dessas festas e também fora delas. Seria de certa forma o “Way of Life” perfeito.

Com a saída das raves do underground, a perda do sentido de conceitos importantes como o P.L.U.R, e a falta de informação ou de pessoas dispostas a informar e ensinar outras pessoas é o que faz das raves virarem grandes baladas a céu aberto. Muitas pessoas passam a ir em raves como se estivessem indo a uma outra balada qualquer ou micareta, e não sabem/entendem direito o que estão fazendo ali. Isso contribui ainda mais com a distorção do que deveria ser uma rave. (Que fique claro que não estamos criticando os que freqüentam a pouco tempo e sim os que distorcem o sentido da festa, sejam eles novatos ou veteranos de rave).

A filosofia do P.L.U.R (e consequentemente das raves) é defrontada hoje de duas formas: o uso errôneo do sentido e o direto ataque aos seus fundamentos. No âmbito do “uso errado do sentido”, vemos coisas estranhas acontecendo (assim como dissemos antes sobre bichinhos de pelúcia, animais de estimação, usar mascaras e fantasias ), como por exemplo o pensamento de que ser “PLUR” é ser feliz a qualquer custo ou pelo menos parecer ser feliz. Uma forma muito peculiar disso é o ato de querer ser amigo de todo mundo, abraçando todas as pessoas, mesmo as que nem se conhece, o que é estranho, pq fora de uma festa ninguém faz isso, nem mesmo essas pessoas. Esse uso errado do P.L.U.R faz parecer que uma festa é um portal entre o mundo real e o mundo do “faz de conta”, e isso, para muitos, não vai passar de bravata e de falsidade. Até aí tudo bem, apesar de estranho nada de maléfico, mas começa a complicar quando a segunda forma começa a se destacar, o “ataque direto aos fundamentos do PLUR”.

A segunda forma aparece através de diversos atos altamente ou completamente reprováveis, como: exagerar nas drogas (somos completamente contra o uso de qualquer entorpecente ilegal, chega os estragos que as bebidas podem fazer) e ficar tão doidão e sem controle, a ponto de agir de maneira agressiva e desrespeitosa (principalmente com mulheres, muitas vezes até acompanhadas) é uma das principais, pq pode dar origem a outros atos que também desrespeitam a filosofia, como brigas, discussões e empurra-empurra. Outros exemplos óbvios são os “showzinhos” que algumas pessoas adoram fazer, como dançar sobre caixas de som, subir nas estruturas metálicas da festa, arriscando até a vida, e conseqüentemente o bom andamento da festa, existindo exemplos de pessoas que ficaram até semi-nuas, o que é um comportamento lamentável e bate de frente com o conceito P.L.U.R.

Outra grave falta, e das mais reprováveis é o ato de jogar dejetos (latinhas, garrafas e bitucas de cigarro, etc) no chão da festa (que muitas vezes é feita em local no meio da natureza). Este é um ato extremamente lamentável, porque além de destruir o meio ambiente, o sujeito que pratica isso ainda tenta justificar a sua falta de consciência e educação dizendo que pagou para estar ali e por isso tem o direito de emporcalhar o local. Ninguém tem o direito de destruir o meio ambiente, sujando e jogando dejetos de qualquer tipo, por três simples motivos: primeiro, a consciência ambiental já está na hora de nascer na cabeça das pessoas; segundo, sujar é falta de educação, e esta, já deveria vir de casa; e terceiro, jogar dejetos constitui crime ecológico. Outras formas graves de ataque direto ao conceito P.L.U.R são o desrespeito ao gosto e opinião alheio, assim como discriminação (através de rótulos) de pessoas, por qualquer motivo (alguns exs. bordamos na matéria“Chacota? Isso existe mesmo?”), bem como desrespeito com os artistas que estão se apresentando, seja chamando-o de “chacota” ou gritando “acelera”ou mesmo vaiando, quando o estilo de som desse determinado artista não tem nada a ver com músicas rápidas e dançantes.

Alguns núcleos de festas também subestimam a capacidade do individuo de querer a paz, união, respeito e amor em raves e fazem de sua organização um motivo extra para desrespeitar as pessoas e deixar estas ainda mais com os “nervos a flor da pele”, pois não planejam a estrutura devida para o número de pessoas previsto, deixando, por exemplo, que se acabe a água ou o número de banheiros não é suficiente, não colocam lixeiras suficientes, transformando o local em um lixão a céu a aberto etc etc, e isso, quando não cobram valores injustificados em seus ingressos e bebidas. Todos esses motivos fazem com que haja descrença, e deixe o termo rotulado como um ideal inexistente, chato ou bobo. Em uma comparação exagerada, é o mesmo que pregar o comunismo, pois na teoria é nobre e bonito, porém na prática é complicado que dê certo, porque todos tem que fazer a sua parte, seguindo todas as regras e conceitos. E foi por esse mesmo motivo que o comunismo ruiu sobre ele próprio. É por esse simples fato que levantamos ao leitor o questionamento se, de fato, o P.L.U.R esta sendo praticado ou não.

A consciência começa quando encaramos as raves como festas e não como rituais, e que estamos lá para nos divertir com bom senso, sem invadir o espaço do outro, respeitando pessoas, coisas e meio ambiente, e não para praticar as barbaridades descritas no parágrafo acima. Para isso basta tentar levar o que há de melhor de nós para as festas. Fazendo isso já se está inconscientemente praticando um pouco de conceito P.L.U.R.

** Um detalhe curioso a acrescentar é que a cena Techno, apesar de não propagar o P.L.U.R e não seguir completamente seus conceitos, está mais adiantada e ajustada com essa filosofia do que a atual cena PsyTrance, que é sua principal divulgadora, pois há muito mais respeito entre as pessoas e artistas. **

Portanto, visto o retrato que mostramos da fase atual da cena, e para evitar uma maior degradação do movimento rave é muito importante que cada um tente fazer sua parte. Isso garantirá que essa filosofia volte a reinar nas festas de maneira verdadeira e todos se beneficiarão com isso, tentando também levar o conceito para fora das festas, para vida de cada um, no dia a dia.

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